"De perto, ninguém é normal. / From up close nobody is normal." (Caetano Veloso)

Friday, September 28, 2007

O Escafandro e a borboleta


Bauby, que escreveu o romance depois de
ser vítima de doença cerebral: código de escrita

Vira filme o romance O Escafandro e a borboleta,

de Jean-Dominique Bauby,

escrito apenas com a pálpebra e também, cujas traduções mostram o fosso de linguagem que separa Brasil e Portugal


Chega em outubro ao Brasil a versão cinematográfica do livro Le scaphandre et le papillon (1997) - O escafandro e a borboleta -, do jornalista francês Jean-Dominique Bauby (1952-1997). O romance foi traduzido em Portugal em 1999, pela casa editorial Livros do Brasil, dois anos depois da versão brasileira, em julho de 1997, pela Martins Fontes. A rapidez com que a editora daqui lançou o livro (sucesso imediato no país de origem) não correspondeu, porém, a uma boa venda entre nós. No Brasil, a obra permanece praticamente desconhecida.

O livro veio à luz em 6 de março de 1997. Naquela semana, dia 9, O Estado de S. Paulo publicou artigo que saíra três dias antes no britânico The Guardian: "Jornalista 'dita' livro usando pálpebra". Sem que se soubesse, a matéria foi veiculada na data em que Bauby falecia. Coube à Folha de S. Paulo noticiar no dia seguinte, dia 10: "Jornalista que 'ditou' livro só com o olho morre aos 45".


Chamou a atenção da mídia, na época, o modo como o escritor trabalhou. Vítima de anartria - perda da articulação das palavras - e de paralisia física total, causadas pela síndrome do encarceramento (locked-in syndrome), Bauby permaneceu literalmente preso dentro de si próprio durante 15 meses, num estado de mutismo, imobilizado e sem forças. A pálpebra do olho esquerdo era a única parte do seu corpo capaz de mover-se. Essa prisão (expressa na imagem do escafandro) não lhe impedia a plena consciência (simbolizada pela borboleta), terrível condição de quem sofre dessa raríssima doença.


Jean-Dominique Bauby, conhecido jornalista e redator na França, foi atingido no dia 8 de dezembro de 1995 pelo acidente cerebrovascular que deixou seu corpo inerte mas preservou as funções intelectuais. No hospital, dependente em todos os sentidos, Bauby tomou a decisão inesperada de escrever um livro. A única forma de realizar esse projeto consistia em ditar letra por letra, recorrendo a um código criado para a comunicação entre o "escafandrista" e o mundo exterior: o código da pálpebra.


Trabalho de paciência e perseverança. Diariamente, pela manhã, Claude Mendibil, freelancer da editora Robert Lafont, apresentava-lhe várias vezes as letras do alfabeto, em ordem decrescente de utilização na língua francesa: E, S, A, R, I, N, T, U, L, O... Com a pálpebra esquerda, Jean-Do (assim os amigos o chamavam) sinalizava qual letra devia ser utilizada na laboriosa construção de cada palavra. Piscava uma vez para dizer "sim" e duas para dizer "não". A finalização de períodos e parágrafos era indicada com o fechar do olho por alguns segundos. No início, Bauby e a assistente produziam meia página por sessão. Ao longo do tempo, chegaram a três páginas, cuidadosamente revisadas pelo autor.


O escafandro e a borboleta tornou-se o maior sucesso literário francês em 1997. Traduzido em mais de trinta línguas, vendeu cerca de 380 mil exemplares no mundo inteiro. O heroísmo com que foi escrito não basta para explicar o interesse que despertou. De fato, a irreverência, a ironia e o bom humor de Bauby estão patentes nos seus comentários à viagem interior que a doença o obrigou a fazer. Preso dentro do escafandro, o autor se dispõe a nos mostrar as coloridas e inquietas borboletas que circulam na sua imaginação, na sua memória, no seu pensamento.


Filme estréia em outubro: piscadas a cada letra ditaram livro, cujas versões realçam diferenças entre o português lusitano e brasileiro


De um lado, a tradutora brasileira Ivone Benedetti. No outro lado do oceano, a portuguesa Clarisse Tavares. Ao compararmos os trabalhos que uma e outra fizeram, traduzindo Bauby, percebemos, não apenas as naturais disparidades que se poderiam esperar de duas versões de um mesmo texto, mas também as características próprias da língua portuguesa brasileira em contraste com a européia.


Talvez o novo acordo ortográfico que em breve entrará em vigor diminua esse contraste, mas não muito. Será sempre uma experiência curiosa observar portugas e brasucas, unidos e separados por um idioma comum, dizendo as mesmas coisas de modo diferente, como no trecho a seguir, em que Bauby visualiza as letras do alfabeto em nova distribuição.


E S A R I N T U L O M D P C F B V H G J Q Z Y X K W

Jean-Dominique Bauby


L' apparent désordre de ce joyeux défilé n'est pas le fruit du hasard mais de savants calculs. Plutôt qu'un alphabet, c'est un hit-parade où chaque lettre est classée en fonction de sa fréquence dans la langue française. Ainsi, le E caracole en tête et le W s'accroche pour ne pas être lâché par le peloton. Le B boude d'avoir été relégué près du V avec lequel on le confond sans cesse. L'orgueilleux J s'étonne d'être situé si loin, lui qui débute tant de phrases. Vexé de s'être fait souffler une place par le H, le gros G fait la gueule et, toujours à tu et à toi, le T et le U savourent le plaisir de ne pas avoir été séparés. Tous ces reclassements ont une raison d'être: faciliter la tâche de tous ceux qui veulent bien essayer de communiquer directement avec moi.


Ivone Benedetti

E S A R I N T U L O M D P C F B V H G J Q Z Y X K W
A aparente desordem desse alegre desfile não é fruto do acaso, mas de cálculos inteligentes. Mais que um alfabeto, é uma hit-parade em que cada letra é classificada em função de sua freqüência na língua francesa. Assim, o E vai caracolando na frente, e o W enganchado atrás para não ser largado pelo pelotão. O B bronqueia porque ficou perto do V, com o qual é sempre confundido. O orgulhoso J se espanta por estar tão longe, ele que começa tantas frases. Envergonhado porque o H não hesitou em lhe roubar o lugar, o gordo G vai grunhindo de raiva, e, o tempo todo no "tu lá tu cá", o T e o U saboreiam o prazer de não terem sido separados. Toda essa reclassificação tem um porquê: facilitar a tarefa de todos os que quiserem tentar comunicar-se diretamente comigo.
A tradutora captou melhor a dinâmica da letra e, encabeçando a fila do alfabeto que desfila ante o olho esquerdo de Bauby. Caracoler é mais do que "cavalgar". Indica sucessão de curvetas à direita e à esquerda que o cavalo pode fazer. Nota-se o cuidado em escolher uma palavra que começasse com a letra b para traduzir a bouderie, a chateação da letra b. "B bronqueia" é solução aceitável. A aliteração de "le gros G fait la gueule" tem correspondente em "o gordo G vai grunhindo de raiva".


Clarisse Tavares

E S A R I N T U L O M D P C F B V H G J Q Z Y X K W
A aparente desordem deste alegre desfile não é fruto do acaso, mas de sábios cálculos. Mais que um alfabeto, é uma hit-parade em que cada letra foi classificada em função da sua frequência na língua francesa. Assim, o E cavalga na dianteira e o W agarra-se às outras para não ser abandonado pelo pelotão. O B amua por ter sido relegado para junto do V com o qual é frequentemente confundido. O orgulhoso J surpreende-se por ter sido colocado tão atrás, ele que inicia tantas frases.
Indignado por se ver num lugar atrás do H, o gordo G faz má cara, e o T e o U, que se tratam por tu, saboreiam o prazer de não terem sido separados. Todas estas reclassificações têm uma razão de ser: facilitar a tarefa de todos aqueles que desejam comunicar directamente comigo.


Como era de se esperar, "frequência" e "frequentemente" sem trema, como em breve os brasileiros terão de escrever. Em compensação, os portugueses terão de aceitar o "diretamente", sem o c que aqui aparece. Com relação à tradução deste trecho, Clarisse assume que o leitor português entenderá por que o J é orgulhoso e se surpreende ao perder tantas posições no alfabeto reclassificado. Já na tradução brasileira, há uma nota de rodapé explicando que o J, de Je (eu), inicia muitas frases na língua francesa.

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